
Insurreição, tumulto e sedição. “Caim”, o novo livro de José Saramago é tudo isto.
Curioso é, porém, que desde 1991, com a obra “O Evangelho Segundo Jesus Cristo”, não se assistia a uma discussão tão acesa sobre uma obra literária portuguesa.
A polémica é tão grande que motivou inúmeros comentários e opiniões de individualidades portuguesas, desde a religião à política, bem como da população anónima em geral. Gerou também uma nova moda: a utilização corrente do termo “Caim”, dada a sua sonoridade semelhante a outros vocábulos da língua portuguesa, de forma jocosa.
Mas afinal Caim é “Caim”?
“Caim” é uma personagem Bíblica, filho primogénito de Adão e Eva.
Segundo o Antigo Testamento, Caim e Abel, o seu irmão mais novo, apresentaram oferendas a Deus. Caim ofereceu fruta e Abel primícias do seu rebanho (Génesis 4:3, 4), a oferta de Abel agradou mais a Deus. Descontente com a situação e num acesso de ciúmes Caim matou Abel.
Foi então condenado à condição de “errante pelo mundo” e constituiu família. Segundo o texto Bíblico, a descendência de Caim terminou com o dilúvio.
“Porque sete vezes Caim será vingado; mas Lameque, setenta vezes sete.” (Génesis 4:23-24)
Seguem-se as declarações polémicas de Saramago no seio da Igreja Católica. José Saramago afirmou, em entrevista à Agência Lusa, que “a Bíblia é um manual de maus costumes, um catálogo de crueldade e do pior da natureza humana”. Afirma também que “A Bíblia passou mil anos, dezenas de gerações, a ser escrita, mas sempre sob a dominante de um Deus cruel, invejoso e insuportável. É uma loucura!”, criticou. O escritor criticou também o conceito de inferno: "No Catolicismo os pecados são castigados com o inferno eterno. Isto é completamente idiota!”. “Nós, os humanos somos muito mais misericordiosos. Quando alguém comete um delito vai cinco, dez ou 15 anos para a prisão e depois é reintegrado na sociedade, se quer”, disse. “Mas há coisas muito mais idiotas, por exemplo: antes, na criação do Universo, Deus não fez nada. Depois, decidiu criar o Universo, não se sabe porquê, nem para quê. Fê-lo em seis dias, apenas seis dias. Descansou ao sétimo. Até hoje! Nunca mais fez nada! Isto tem algum sentido?”, perguntou. “Deus só existe na nossa cabeça, é o único lugar em que nós podemos confrontar-nos com a ideia de Deus. É isso que tenho feito, na parte que me toca”.
Estas declarações geraram a polémica antes mesmo do livro se encontrar disponível nas bancas.
O Padre Manuel Morujão, porta-voz da Conferência Episcopal Portuguesa, insurgiu-se classificando o livro como “uma operação de publicidade”, uma vez que já houve muito quem dissesse bem da Bíblia e que o que causava impacto agora era dizer mal. Acrescentou ainda que “poderá (José Saramago) fazer as suas críticas, mas entrar num género de ofensa não fica bem a ninguém, sobretudo quem tem um estatuto de prémio Nobel”. O prelado D. Manuel Clemente, disse que Saramago “revela uma ingenuidade confrangedora quando faz incursões bíblicas”. O Padre Peter Stilwell afirmou, quando questionado relativamente ao valor literário da Bíblia, enquanto património literário da Humanidade, que “se a ideologia não o permite, pelo menos na prática, acaba por reconhecê-lo ao elegê-la como alvo privilegiado do seu combate”.
Ana Medeiros
